AS QUATRO ESTAÇÕES

Oscar Niemeyer

Às vezes vale a pena deixar de lado, por alguns minutos que sejam, esse período lamentável da vida brasileira.

Respirar. Desprezar as perfídias, as falcatruas, a imensa injustiça em que vivemos. Recordar coisas do velho Rio, fatos banais importantes nas nossas pobres vidas ou, como é o caso deste pequeno texto, lembrar uma obra valiosa que não deve ser omitida.

Não sei o grau de parentesco existente entre a família do meu avô Ribeiro de Almeida e a do ex-prefeito Pereira Passos. Sei que eram muito ligadas, que como primos se visitavam, e minha mãe amicíssima de sua filha Ernestina.

Lembro-me muito pequeno, a subir com ela a ladeira que entre jardins e árvores frondosas nos levava a sua residência.

E se dele, pessoalmente, nada recordo, nunca esqueci o entusiasmo com que Le Corbusier, ao chegar ao Rio, comentou a Avenida Rio Branco, por ele corajosamente construída.

E foi a conselho de Pereira Passos que minha prima Emília Adelaide de Almeida e Albuquerque - que comprou a casa da Rua Conde Lages, 25, e ele, por sua vez, a de número 23.

Eram casas geminadas, de frente de rua, com dois andares cada uma, quatro janelas na fachada e os balcões gradeados como usual.

A casa de minha prima teve as utilizações mais variadas, acompanhando a evolução que o tempo ia criando na vida do velho Rio.

Primeiro, alugada para residência; depois para delegacia de polícia; depois, como todas as outras, para pensão de mulheres; depois ainda, para meu escritório de arquitetura e, a seguir, por desejo meu, para o Comitê Metropolitano do Partido Comunista Brasileiro, quando a Polícia Política a invadiu e dela se apropriou, devolvendo-me muito tempo depois.

Não conheci sua primeira fase, mas a imagino numa rua tranquila, ladeada de residências e de jardins, acolhedora como era a vida nas áreas de moradia naquela época.

Ignoro se Lima Barreto a incluiu ao falar das ruas do antigo Rio, naquele estilo próprio e saboroso que a elite das letras nacionais não soube compreender e meu amigo Nelson Werneck Sodré tão bem soube acusar no livro, Nova Califórnia, publicado pela Revan.

Mas recordo seu período de boemia integrada na zona da Lapa e eu com meus colegas do colégio dos Padres Barnabitas a passearmos por aquelas bandas, atraídos pelo clima de sacanagem e de brigas existentes. As mulheres a circularem desenvoltas, quase nuas, pelas calçadas, e o homem do violão a tocar seus sambas no café da esquina.

Lembro depois, meu escritório nela instalado e a rua novamente tranquila com os pregoeiros a gritarem seus produtos, e nós, felizes, como se vivessemos num antigo bairro do Rio.

Tudo mudou. Meus camaradas comunistas saíram da prisão e lá os recolhi. Paredes foram derrubadas, e a minha casa da Rua Conde Lages se encheu de gente, de faixas, cartazes e entusiasmos.

Agora, com a localização da Fundação Oscar Niemeyer, dirigida por minha neta Ana Lucia naquele prédio, um ambiente de calma e trabalho predomina. Na casa ao lado, antes pertencentes aos netos de Pereira Passos, o nosso amigo arquiteto Luís Marçal instalou-se, o mesmo acontecendo com minha neta Ana Elisa e Jair Valera, com escritório de arquitetura no andar superior. A casa seguinte deverá ser adquirida por outro companheiro, o arquiteto Cydno Silveira. E assim, pouco a pouco, como seguindo o espírito do setor cultural naquela faixa criado, outros artista e arquitetos, nossos amigos, pensam para lá mudarem, transformando aquele trecho da rua Conde lages num ambiente de arte e cultura.

Às vezes, vou visitar minhas netas onde encontro um clima de paz e alegria que muitos, muitos anos atrás, também nos envolvia. Um ambiente de trabalho e boa amizade que o riso e o amor pela vida só fazem exaltar.

Todas essas recordações surgiram ao iniciar este texto desejoso de recomendar um livro escrito por Antônio Bulhões, neto de Pereira Passos. Um livro que me agradou intensamente. Um pouco biográfico, contendo coisas de um sanatório, em Teresópolis, mas de forma tão inteligente e cultivada que todos deveriam ler.

Chama-se As Quatro Estações esta obra-prima da literatura brasileira.


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